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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

HOMILIA DO MINISTRO GERAL DOS FRADES MENORES NA FESTA DOS ESTGMAS DE SÃO FRANCISCO

Há poucos dias celebramos a festa da exaltação da santa Cruz. Hoje, em todo o mundo franciscano e particularmente nesta santa montanha do Alverne, santificada pela presença do Senhor em forma de serafim e pela presença de Francisco, o estigmatizado do Alverne, celebramos o mistério da Cruz que se fez visível na carne do Poverello, realizando-se em seu corpo, de forma visível, aquilo que disse o Apóstolo: “de agora em diante ninguém me moleste, pois carrego em meu corpo as marcas do Senhor Jesus”(Ga 6,17). Paulo carregava em seu corpo as cicatrizes das tribulações suportadas por Cristo (cf. 2Cor 6,4-5; 11,23ss), Francisco leva em suas mãos, pés e no lado, os estigmas da Paixão de Cristo.

As biografias do santo nos narram como aconteceu o prodígio singular dos Estigmas. Perto da festa da Santa Cruz, dois anos antes de sua morte, o seráfico pai subiu a esta montanha, para iniciar a quaresma que costumava praticar em honra do Arcanjo São Miguel. Desejando ardentemente conhecer a vontade de Deus, para configurar-se todo a Cristo, abriu por três vezes o livro dos Evangelhos em nome da santa Trindade, e encontrando sempre a narração da Paixão do Senhor, orava insistentemente para sentir em seu corpo as dores do Crucificado. Teve, então, uma visão da qual sentiu muito gozo e uma profunda dor ao mesmo tempo: era o Senhor em forma de serafim crucificado que lhe manifestava que seria transformado totalmente na imagem de Cristo crucificado. Terminada a visão apareceram na carne deste amigo de Cristo os sinais da Paixão do Senhor: os cravos que traspassaram suas mãos e seus pés, e uma chaga em seu lado (cf. LM XIII, 1ss).

Nesta memória litúrgica dos Estigmas de são Francisco, procuremos acentuar alguns aspectos importantes que nos oferecem este evento prodigioso, partindo da narração que nos oferece são Boaventura. O Doutor Seráfico introduz a narração da impressão das chagas com estas palavras: «Francisco havia aprendido a distribuir tão prudentemente o tempo a sua disposição: parte dele o empregava em fadigas apostólicas em favor do próximo, parte o dedicava às tranqüilas elevações da contemplação. E, por isso, depois de haver se empenhado em procurar a salvação dos demais, segundo o exigiam as circunstâncias dos lugares e tempos, abandonando o ruído das multidões, se dirigia ao mais recôndito da solidão» (LM XIII, 1).
Francisco nos ensina que não podemos ser todo para os demais se não se é todo para o Senhor. E não se pode ser todo para o Senhor, quem não se encontra constantemente consigo mesmo. O Poverello nos ensina a necessidade de buscar para a nossa existência, um “projeto de vida ecológico”, como diríamos hoje, onde o compromisso a favor dos demais seja acompanhado de “vacare Deo”, como diziam os antigos, ou seja, dedicar tempo para Deus, e dedicar tempo para nós mesmos. Francisco, verdadeiro “mendicante de sentido”, estava sempre a procura do homem e sempre a procura de Deus e de sua vontade, como observa São Boaventura, buscava incessantemente encontrar-se consigo mesmo e por isso buscava e amava a solidão.

O homem é certamente um “ser social”, criado “para a relação”, porém, a experiência demonstra, que só quem pode viver sozinho também sabe viver plenamente as relações. Só quem não teme descer na própria interioridade sabe afrontar o encontro com a alteridade, com Deus e com os demais. Ao invés, a incapacidade de interiorização, de habitar a própria vida interior, se converte também em incapacidade de criar e de viver relações sólidas, profundas e duradouras com Deus e com os demais. Claro que nem toda solidão é positiva: existem formas de fugas, que são patológicas, como o isolamento e o medo de relacionar-se com os outros. Porém entre estas patologias e o ativismo desmedido, a solidão é equilíbrio e harmonia, força e firmeza. Quem assume a solidão como fez Francisco, é quem mostra o valor de enfrentar-se consigo mesmo, de reconhecer e aceitar como tarefa própria o ser “ele próprio”. Por outro lado, se alguém, como Francisco, tem como objetivo buscar a vontade de Deus (cf. LM XIII, 1), não pode a encontrar refugiando-se no “grupo”, no anonimato da multidão e nem mesmo fechando-se em si mesmo. Oxalá não seja a solidão um dos maiores sinais do amor: para conosco mesmos, para com Deus e para com os outros.

A solidão é lugar de unificação do próprio coração e da comunhão com Deus e com os demais. Quando a solidão nos leva a encontrar-nos conosco mesmos, então é purificação das relações, e, para nós, cristãos, é também um lugar de comunhão com o Senhor. Ao comentar o texto de João 5,13, onde se diz que o homem que foi curado não sabia quem o havia curado, já que Jesus havia desaparecido entre a multidão, Santo Agostinho escreve: “É difícil ver a Jesus em meio da multidão; necessitamos da solidão. Na solidão, com efeito, se a alma observa bem, Deus se deixa ver. A multidão é ruidosa, para ver a Deus necessitamos do silêncio”. Por outro lado, a solidão é o crisol do amor: as grandes relações humanas e espirituais não podem deixar de cruzar a solidão. Certamente, o cristão, como Jesus, deve preencher a solidão com a oração, com a luta espiritual, com o discernimento da vontade de Deus, com a busca de seu rosto. Francisco em tudo isto se nos apresenta como um verdadeiro mestre, tendo sido um verdadeiro discípulo de Cristo.

Na verdade, o Cristo, em quem dizemos que cremos e que dizemos amar, o encontramos constantemente em lugares afastados para orar, buscando a solidão para viver a intimidade com o Abba e para discernir sua vontade. Aquele que viveu na cruz a plenitude da intimidade com Deus, conhecendo o abandono de Deus, recorda ao cristão que a solidão é mistério de comunhão e nos ensina que a máxima solidão manifestada na cruz é mistério de amor, a maior manifestação do amor do Pai para conosco. “Tanto Deus amou o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16); a maior manifestação de amor de Jesus pela humanidade: “nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).

«Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23), escutamos no Evangelho de hoje. Encontramos nestas palavras um compêndio da vida cristã, o espelho da Palavra com que o discípulo deve conformar o seu próprio rosto. Como cristãos, nossa vida deve levar impressas as características de Jesus, o Filho crucificado por amor. Olhando «ao que traspassaram» (Jn 19,37), a cruz se converteu num selo de pertença a Deus em Jesus (cf. Ap 7,2ss; Ez 9,4). Levar a cruz cada dia é assumir nossos males, é morrer cotidianamente por Cristo, vivendo para ele, até poder dizer: «Estou crucificado com Cristo: vivo, e não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Ga 2,20). Tomar a cruz significa sentir-se crucificado com Cristo, ser partícipes da Paixão do Senhor Jesus, sentir que somos dele e que já não nos pertencemos mais a nós mesmos. Disse Bento XVI: Para levar a pleno comprimento a obra da salvação, o Redentor continua a associar a si e à sua missão homens e mulheres dispostos a tomar a cruz e segui-Lo. Como para Cristo, assim também para os cristãos levar a cruz não é opcional, mas é uma missão que deve abraçar com amor. Em nosso mundo atual, onde parecem dominar as forças que dividem e destroem, Cristo continua oferecendo a todos, seu claro convite: “quem quiser ser meu discípulo, renegue ao próprio egoísmo e carregue comigo a cruz”. Peçamos a intercessão do Estigmatizado do Alverne, para que o Senhor nos conceda seguir com decisão atrás dEle, conformar-nos à Paixão de Cristo e ser partícipes de sua Ressurreição.

Fr. José Rodríguez Carballo, ofm – Ministro geral OFM
Monte Alverne, 17 de setembro de 2010
Festa dos Estigmas de são Francisco

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O PERFEITO AMOR DE SÃO FRANCISCO AO CRUCIFICADO

No dia 17 de setembro celebra-se a festa da impressão das chagas de São Francisco de Assis. Os estigmas que Francisco recebeu em 1224, no Monte Alverne, após uma visão do Cristo crucificado em forma de Serafim alado, são sinais visíveis de sua semelhança à humanidade de Cristo, nos seus três modos: na vida, na paixão e na ressurreição.

Francisco encontrou-se pela primeira vez com o Crucificado na pequena Igreja de São Damião. Num certo dia, conduzido pelo Espírito, entrou nessa Igreja e prostrou-se diante da imagem do Cristo crucificado que, movendo de forma inaudita os seus lábios, disse: “Francisco, vai e restaura minha casa que, como vês, está toda destruída” (2Cel 10,5). E, conta-nos Celano, que Francisco sentiu desde então uma inefável mudança em si mesmo, pois são impressos mais profundamente no seu coração, embora ainda não na carne, os estigmas da venerável paixão.

No entanto, foi ao ouvir o Evangelho acerca da missão dos apóstolos (Mt 10, 7-13), que Francisco compreendeu o real significado da voz do Crucificado, e imediatamente exclamou: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração” (1Cel 8,22). Assim, sob o toque ou o apelo de uma afeição, começou devotadamente a colocar em prática o que ouvira, isto é, distribuiu aos pobres todos os seus bens materiais, bem como renegou-se a si mesmo para que, exterior e interiormente livre, pudesse ir pelo mundo e anunciar aos homens a paz, a penitência e, enfim, o amor não amado de Deus.

O amor que é Deus realizou-se na sua profundeza, largura e altitude na pessoa de Jesus Cristo. A encarnação, o estábulo, o lava-pés e a Eucaristia são expressões concretas do modo de amar como só o Deus de Jesus Cristo pode e sabe amar. Porém, foi especialmente ao entregar incondicional e gratuitamente a sua vida na Cruz, que o Filho de Deus revelou à humanidade que Deus é essencialmente caridade perfeita.

Francisco, por inspiração divina, abraçou pobre e humildemente a cruz de Jesus e deixou-se impregnar, arrebatar e transformar totalmente pelo espírito de abnegação divina. Isso quer dizer que a imitação de Cristo, por parte de Francisco, não é mera repetição mecânica dos gestos exteriores de Jesus, mas é manifestação de sua profunda sintonia com a experiência originária de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode observar “com simplicidade e pureza” a Regra e o Testamento de São Francisco e realizar em si mesmo as santas operações do Senhor.

Na Terceira consideração dos sacrossantos estigmas considera-se que, aproximando-se a festa da Santa Cruz no mês de setembro, o pai Francisco, na hora do alvorecer, se pôs em oração, diante da saída de sua cela, e entre lágrimas orava desta forma: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores”(I Fioretti)). E, relata Boaventura que, enquanto Francisco rezava, “viu um Serafim que tinha seis asas (cf. Is 6,2) tão inflamadas quão esplêndidas a descer da sublimidade dos céus. E [...] apareceu entre as asas a imagem de um homem crucificado que tinha as mãos em forma de cruz e os pés estendidos e pregados na cruz. [...] Imediatamente começaram a aparecer nas mãos e nos pés dele os sinais dos cravos” (LM 13,3). Assim, Francisco transformara-se todo na semelhança de Cristo crucificado (cf LM 13,5). Pois, de fato, trazia Jesus no coração, na boca, nos ouvidos, nos olhos, nas mãos, nos sentimentos e em todos os demais membros (cf. I Cel 9,115), e conseqüentemente podia exclamar com o apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

O Pobre de Assis, no seguimento de Jesus Cristo, perdeu a sua própria vida, mas recuperou-a inteiramente em Deus, de acordo com a palavra do Evangelho: “Quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 12,25). Todavia, Francisco não somente reencontrou a si mesmo em Deus, como filho de Deus, mas a todos os seres do universo. O Cântico das Criaturas, que compôs pouco antes de sua morte corporal, é expressão jubilosa dessa intensa experiência eco-espiritual: “Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas”.

O pai Francisco tornou-se assim um mestre na sequella Iesu. De imediato despertou o fascínio de muitas pessoas e atraiu muitos discípulos e discípulas, entre as quais, Santa Clara. Clara e suas Irmãs, a exemplo de Francisco, também querem chegar ao cimo da montanha da perfeição do amor. A propósito subscrevemos parte do VII capítulo (Do perfeito amor de Deus) de um interessantíssimo opúsculo que Boaventura escreveu à abadessa das Irmãs, do convento de Assis, sobre A perfeição da vida:


“Não é possível excogitar um meio mais apto e mais fácil para mortificar os vícios, para progredir na graça, para atingir o auge de todas as virtudes do que a caridade. Por isso diz Próspero, no seu livro Sobre a vida Contemplativa: “A caridade é a vida das virtudes e a morte dos vícios”. Como a cera se derrete diante do fogo, assim os vícios perecem diante da caridade. Porque a caridade possui tanto poder que só ela fecha o inferno, só ela abre o céu, só ela dá a esperança da salvação, só ela nos torna dignos do amor de Deus. Tal poder possui a caridade que entre todas as virtudes só ela é chamada propriamente virtude. Quem a possui é rico, tem abundância, é feliz. [...] E diz Santo Agostinho: “Se a virtude conduz a uma vida bem-aventurada, eu quisera afirmar em absoluto que nada é propriamente virtude senão o sumo amor de Deus”. Sendo, por conseguinte, o amor de Deus uma virtude tão elevada, cumpre insistir em alcançá-lo acima de todas as demais virtudes; porém, não um amor qualquer, mas só aquele com que Deus é amado sobre todas as coisas e o próximo por amor de Deus.


O modo de amar a teu Criador ensina-o o teu esposo no evangelho: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Repara bem, caríssima serva de Jesus Cristo, que amor o teu dileto esposo exige de ti. Quer o teu amado que ao seu amor dediques todo o teu coração, toda a tua alma, todo o teu espírito, de sorte que absolutamente ninguém em todo o teu coração, em toda a tua alma, em todo o teu espírito, tenha parte com ele. Que, pois, fará para amares o Senhor teu Deus realmente de todo o coração? Que quer dizer: de todo o coração? Vê como São João Crisóstomo ensina: “Amar a Deus de todo o coração significa não estar o teu coração inclinado a nenhuma outra coisa mais do que ao amor de Deus; não te comprazeres nas coisas desse mundo mais do que em Deus, nem nas honras, nem mesmo nos pais. Se, todavia, o teu coração se ocupar em alguma destas coisas, já não o amas de todo o coração”. Peço-te, serva de Cristo, não te iludas. Fica sabendo que, se amas alguma coisa, e não a amas em Deus e por Deus, já não o amas de todo o coração. Por isso diz Santo Agostinho: “Senhor, menos te ama quem ama alguma coisa contigo”. Se amas alguma coisa que não te faz progredir no amor de Deus, não o amas de todo coração. E se, por amor de alguma coisa, negligencias aquilo que deves a Cristo, já não o amas de todo o coração. Ama, pois, o Senhor teu Deus de todo o coração.

Não somente de todo o coração, mas também de toda a alma devemos amar a Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor. Que significa: de toda a alma? Vai dizê-lo Santo Agostinho: “Amar a Deus de toda a alma é amá-lo com toda a vontade, sem restrições”. Amarás, certamente, de toda a alma, se sem contradição e de boa vontade fizeres não o que tu queres, nem o que aconselha o mundo, nem o que te inspira a carne, mas aquilo que reconheceres como sendo a vontade de Deus. Amarás, de fato, a Deus de toda a tua alma quando por amor de Jesus Cristo entregares de boa vontade tua vida à morte, sendo necessário. Se nisto, porém, faltares, já não amas de toda a alma. Ama, pois, ao Senhor teu Deus de toda a tua alma, isto é, faze a tua vontade sempre em conformidade com a vontade divina.

Entretanto, não só de todo o coração, não só de toda a alma, deves amar o teu esposo, Jesus Cristo. Ama-o também de todo o teu espírito. Que quer dizer: de todo o teu espírito? Di-lo novamente Santo Agostinho: “Amar a Deus de todo o espírito, é amá-lo com toda a memória, sem esquecimento”. (in: Obras Escolhidas. Porto Alegre: EST, 1983, p. 433-435).

Frei João Mannes, OFM

Fonte: franciscanos.org.br

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

UMA LUZ PARA NOSSO TEMPO: CANONIZAÇÃO DA CLARISSA CAMILA BATISTA DE VARANO

Carta do Ministro Geral OFM,
Frei José Rodríguez Carballo,
por ocasião da canonização de
Camila Batista de Varano, OSC


Caríssimos irmãos e irmãs,
O Senhor lhes dê a paz!

Aos 19 de fevereiro de 2010, Bento XVI, em consistório público, inscreveu no Catálogo dos Santos uma irmã nossa, a Clarissa Camila Batista de Varano. A canonização acontecerá em São Pedro no dia 17 de outubro de 2010.

Com verdadeira alegria, do mosteiro em que Camila Batista de Varano viveu e onde repousa o seu corpo, onde me encontro com os confrades do Definitório para frequentar por alguns dias a escola de Camila, desejo comunicar-lhes esta “boa notícia”, que fará felizes todas as Clarissas: o carisma clariano é capaz de produzir frutos de santidade em cada época! E isto acontece no ano de 2010, ano que, no caminho de preparação para a celebração do VIII centenário dos inícios de vida de Santa Clara em São Damião, é dedicado à contemplação. Uma “boa notícia” que torna orgulhosas as Clarissas de Camerino, fiéis guardas do corpo da nova santa e da sua memória.

Mas é um acontecimento que envolve também a nós, Frades Menores. A canonização da Beata Camila Batista de Varano é a demonstração de que a “plantinha” do pai São Francisco continua a alegrar o seu coração com novos e vigorosos rebentos. Além disso, cada etapa do itinerário espiritual da Beata foi acompanhada pelos Frades Menores – Domingos de Leonissa, Pacífico de Urbino e Pedro de Mogliano – figuras excelentes da “Observância franciscana”, porta-vozes daquele fervor de renovação que marcou a Ordem franciscana e que acabou por contagiar também Camila Batista na sua ação de renovação espiritual, reintroduzindo, nos mosteiros por ela fundados, a Regra de Santa Clara.

Enfim, a canonização de Camila Batista de Varano, como conclusão das celebrações do VIII centenário da fundação da Ordem dos Frades Menores, recorda-nos que a santidade constitui a fundamental via para dar significatividade à nossa vocação e missão.

Não é o caso agora de focalizar a sua vida, a sua experiência humana e espiritual, mesmo porque neste sentido existe uma abundante literatura. Esta minha carta-comunicação quer somente estimular um maior conhecimento desta extraordinária mística, sobretudo através da leitura de seus escritos, pelo menos os mais importantes, como Vita spirituale (Autobiografia) e I dolori mentali de Gesù nella sua Passione.
Breves notas biográficas

Camila de Varano nasceu em Camerino em 1458, filha de Júlio César de Varano. É filha ilegítima, mas predileta do pai e da mulher Giovanna Malatesta, que foi mais do que mãe. Dos seus numerosos escritos, especialmente, se deduz que Camila tenha recebido uma sólida formação humanística, favorecida por uma inteligência aguda, por um caráter forte e tenaz e pela vontade de viver e divertir-se.

Depois de ter resistido por vários anos ao chamado do Senhor, no dia 4 de novembro de 1481, Camila ingressou no Mosteiro das Irmãs Pobres de Santa Clara em Urbino, assumindo o nome de Batista. Aos 14 de janeiro de 1484, deu vida a um novo Mosteiro em Camerino, onde introduziu a Regra de Santa Clara. Em 1502, para fugir do assédio da sua cidade por parte de César Bórgia, Ir. Batista refugiou-se em Atri, retornando depois a Camerino nos inícios de 1504. Depois de ter fundado os Mosteiros das Clarissas em Fermo (1505-1506) e em São Severino Marche (1521-1522), morreu em Camerino no dia 13 de maio de 1524.

Aos 7 de abril de 1843, o Papa Gregório XVI reconheceu o culto público, atribuído a ela desde tempos antiquíssimos, e declarou-a Beata. Aos 8 de abril de 1891, Leão XIII aprovou as atas do Processo, em vista da canonização, e no dia 4 de fevereiro de 1892 os seus escritos. Aos 17 de outubro de 2010, Bento XVI a proclamará Santa.

Um coração tenso

Camila Batista de Varano viveu radicalmente o ideal evangélico de São Francisco e de Santa Clara, mas foi marcada fortemente também pela nova sensibilidade cultural e espiritual que estava surgindo com o renascimento, pelas circunstâncias trágicas da sua família e da sua cidade, pela trama complexa da vida da Ordem dos Frades Menores e das Irmãs Pobres de Santa Clara. Todas estas circunstâncias plasmaram o seu espírito que, dócil à ação da graça divina, deu vida a uma experiência evangélica que incidiu profundamente no tempo em que viveu Camila Batista.

O segredo desta “transfiguração”? A sua vida e o seu caminho de conversão são profundamente determinados pelo encontro com o Crucificado. Como não lembrar-se do encontro de São Francisco com o Crucificado em São Damião? Como não acolher o convite de Santa Clara a contemplar “o mais belo entre os filhos dos homens”, pendurado na Cruz? Mas é a própria Camila Batista a nos guiar com os seus escritos: “a memória da Paixão de Cristo é como uma arca dos tesouros celestes, uma porta que permite entrar e degustar o glorioso Jesus e uma perfeita mestra de todas as artes espirituais, uma fonte inexaurível de água viva, um poço profundíssimo dos segredos de Deus... Quem quiser estar livre de toda impureza e ter um sinal da glória futura e da beatitude... procure esta doce memória da Paixão de Cristo, como o apóstolo Paulo, que portava continuamente os estigmas da Paixão em seu corpo”.

Tudo teve início no longínquo 1466 (ou 1468), quando Frei Domingos de Leonissa exortou os fiéis, na pregação da Sexta-feira santa, a recordarem a Paixão de Cristo. Entre os tantos que o escutaram, uma menina de 8/10 anos, Camila de Varano, o tomou a sério, até apegar-se a Cristo pobre e crucificado com todo o seu ser, deixando-se transfigurar por esta presença de vida, pelas dores, alegrias, aspirações e profundas contradições da sua época e da sua Ordem.

A santidade de Camila Batista envolve-nos, como Irmãs Pobres de Santa Clara, como Frades Menores e como mulheres e homens do nosso tempo, porque torna visível a tensão do coração humano, o seu difícil caminho de conversão e, ao mesmo tempo, a fecundidade da conformação à cruz de Cristo: na santidade desta mulher singular, a luz da ressurreição, da plenitude do homem em Cristo, resplende através dos séculos.

Atualidade de Camila Batista de Varano

Camila Batista revela-se, antes de tudo, como uma mulher capaz de aceitar o desafio da existência, encarnando uma “paixão pela vida”, vivida como busca incessante da verdade e da liberdade. Não foi passiva, não sofreu simplesmente os condicionamentos familiares ou políticos que teriam podido aprisionar a sua existência. Soube ser protagonista original da sua vida, construindo a sua humanidade em um dinamismo de liberdade voltado à busca genuína dos valores.

Em uma época caracterizada pelo relativismo moral e pela superficialidade intelectual, em que os modelos sociais e midiáticos são tão possessivos e dominantes, necessitamos hoje do exemplo de um espírito livre e valente que saiba viver com coragem a sua originalidade.

Camila Batista apresenta-se aos nossos olhos como uma figura extraordinariamente atual. Ela vive em uma época só aparentemente diferente da nossa, feita de lutas e de guerras, de dramas e de ódio, mas também de grandes impulsos humanos, artísticos e espirituais.

Através da canonização da Beata Camila Batista, a Igreja realiza um gesto profético através do qual aponta à humanidade inteira, a todos os batizados e à família franciscana esta figura de mulher verdadeiramente evangélica, sinal eloquente de conversão realizada, de resposta coerente ao Evangelho e à vocação a que todo homem é chamado.

Uma luz para a humanidade

O que foi a vida de Camila Batista, senão um incessante, comovido e apaixonado silêncio que escuta aquela Palavra da cruz que revela a plenitude da vida e do amor? O que foi a sua experiência, senão um contínuo imergir-se no mistério pascal em que se pode ler e re-encontrar o próprio sofrimento e descobri-lo habitado, remido, transfigurado?

Ela desejou que a sua vida fosse uma contínua sexta-feira santa. O sentido deste desejo está na mensagem que Camila Batista entrega à humanidade inteira: no sofrer humano está escondida a luz e a presença do Ressuscitado que transfigura cada dor e preenche toda solidão.

Contemplando a paixão, de Cristo, Camila Batista contempla a paixão do homem de cada tempo e de cada lugar, descobre e indica a cada um o sentido, a luz e a força que a humanidade incessantemente invoca.

Na nossa época, marcada por uma profunda crise econômica que fez emergir uma significativa urgência ética no agir e no pensar, Camila Batista indica uma via a seguir: colocar dentro da história os valores evangélicos do dom e da gratuidade. O verdadeiro contemplativo, de fato, não se subtrai à responsabilidade de mergulhar-se na história, mas sabe que é enviado a tornar presente o rosto do Deus contemplado, através da restituição dos dons de graça recebidos.

À humanidade perdida por causa da emergência educativa, evidenciada pelo difuso mal-estar dos jovens e pela pobreza de pontos de referência, Camila Batista indica a urgência de educadores, mestres e testemunhas credíveis. Os seus escritos nos oferecem diversas figuras de pais na fé, sobretudo Frades, que acompanharam e guiaram o seu caminho e, contemporaneamente, nos revelam a sua extraordinária capacidade pedagógica. Camila Batista, como mãe espiritual e como guia sábia, sabe fazer-se modelo de vida e canal da graça, como ela própria relata: “É necessário ser “vaso”, antes que “canal”. Por quase vinte anos, esta tua mãe foi “vaso”, isto é, procurou guardar, conter a graça em si, depois, como “canal”, a difundiu e escreveu para outros”.

Na época da comunicação de massa, da Internet e do progressivo desenvolvimento dos sociais network, assistimos, quase impotentes, a um singular paradoxo: de uma parte, de fato, emerge uma incontenível necessidade de comunicação e de informação em tempo real; de outra parte, se desenvolve um crescente medo nos confrontos com o diferente, estigmatizado na figura do estrangeiro que busca às nossas portas, com uma consequente elevação das fronteiras e dos muros que impedem, a acolhida e a partilha. Neste contexto, Camila Batista revela-se mestra de diálogo, entendido como necessidade humana, vital e cotidiana. O Tu de Jesus Cristo contemplado e amado conduziu-a ao tu dos irmãos e das irmãs, fazendo dela uma mulher extraordinária de relação. O diálogo é, de fato, o tecido, o estilo e a categoria predominante do seu modo de escrever e de sua experiência mística.

Em uma sociedade líquida, cética quanto ao ideal da fidelidade, capaz de assumir somente empenhos temporários e condicionados, Camila Batista provoca-nos com a sua capacidade de fazer escolhas definitivas e radicais na força do amor e do perdão incondicional. É uma clarissa autêntica que soube crer no Amor (1Jo 4,16).

Esta genuína filha de Santa Clara se deixou ferir pelo amor de Cristo, ao qual ela se deu totalmente com impulso apaixonado e exclusivo, fiel e incondicional, capaz de amar os inimigos e de enfrentar com extraordinária fortaleza as duríssimas provas que marcaram a sua vida.

Uma luz para a Igreja

Camila Batista – seguindo o exemplo e o ensinamento de Clara e Francisco – viveu uma fidelidade heroica à Igreja, mesmo quando deveu enfrentar, por ela, sofrimentos amaríssimos. Esta sua tenaz obediência se enraíza na consciência de que a Igreja é a própria imagem de Cristo, seu corpo vivo e sua concreta presença na história, dentro da qual se realiza eficazmente a obra da nossa salvação. Não houve compromisso ou fragilidade humana que conseguisse desviá-la do propósito de viver esta total pertença à Igreja: o sofrimento não a tornou rebelde, mas ainda mais fiel no oferecer orações e súplicas aflitas a Deus pela “renovação da igreja”.

Temos necessidade, também nós, sobretudo no nosso tempo, de redescobrir o gosto desta pertença eclesial que gera uma fecunda e universal comunhão em Cristo.

Também por este motivo, a canonização oferece Camila como modelo a todos os batizados e como exemplo de vida cristã: a sua luz é a da relação perseverante e apaixonada com Cristo crucificado, de uma martyria feita credível pela pobreza, de uma koinonia concretizada na fraternidade, de uma diakonia radicada na contemplação; uma luz autorizada, capaz de orientar todo caminho eclesial.

* Escolhendo professar a Regra de Clara de Assis, de fato, Camila Batista indica a cada cristão a via da pobreza como via de testemunho radical, como autêntica martyria: “Esta serva de Deus comprou caro para si e para os outros a pobreza, e somente a ela tocou pagar o preço; de modo que lhe custa caro a pobreza, mais que a riqueza aos ricos, e mais ela a desejou e buscou do que o mundo busca o dinheiro”.
* Vivendo plenamente o carisma franciscano, ela mostra à Igreja a via da fraternidade como atuação da koinonia: uma fraternidade que pede a renúncia ao poder e ao individualismo e chama a um amor gratuito, evangélico, generoso, a uma caridade crucifixa, semelhante à da Perfeita alegria de Francisco: “Ó meu clementíssimo Deus, se Tu me revelasses todos os segredos do teu sacratíssimo Coração e, cada dia, me mostrasses todas as hierarquias angélicas, se cada dia eu ressuscitasse os mortos, não crerei por isto que Tu me amas com infinito amor. Mas, quando eu sentir ter obtido a graça de um perfeito amor, isto é, de fazer bem a quem me faz mal, de dizer bem e louvar a quem sei que me diz o mal e injustamente me censura, somente então por este sinal infalível, meu Pai clementíssimo, crerei ser tua verdadeira filha. Somente então, serei conforme ao teu diletíssimo Filho Jesus Cristo Crucificado, que é o único bem da minha alma, conforme a ele, ó Pai, que, estando na cruz, orou a ti pelos que o crucificavam”.
* Herdeira exemplar de Clara de Assis, Camila oferece-nos a via da contemplação como real e específica diakonia. A Igreja inteira e cada batizado, mediante a contemplação, volta à sua fonte vital e desenvolve um ministério de intercessão: é este o serviço que Clara e Camila Batista desenvolveram, recordando-nos o primado de Deus e a misteriosa fecundidade apostólica da contemplação, destinada a incidir profundamente na vida da Igreja.

Uma luz para a família franciscana

Camila Batista manifesta-se como uma cristã capaz de viver com seriedade e intensidade a busca de Deus, radicando-se na experiência bíblica. Embora dotada de uma refinada e elevada formação cultural, o seu modo de ler a Escritura nunca assumiu o estilo de uma erudição árida. À luz da Palavra, relê o seu itinerário vocacional e toda a sua vida, servindo-se do modelo bíblico: os grandes acontecimentos da história da salvação estão na base da sua espiritualidade quase como profecias que se realizam.
Aproximando-nos de seus escritos, damo-nos conta de que a liturgia é o lugar privilegiado em que ela escuta a Palavra, alcançando aí a luz e a força para realizar as suas escolhas.

“Tu, Senhor, por graça nasceste na minha alma e me mostraste a via e a luz e lume da verdade para chegar a ti, verdadeiro paraíso. Nas trevas e escuridão do mundo, me deste a vista, o ouvir e o falar e o caminhar – pois que na verdade eu era cega, surda e muda – e me ressuscitaste em ti, verdadeira vida, que dás vida a cada coisa que tem vida”.

Camila Batista mostra-nos a via concreta para observar o santo Evangelho, para colocá-lo em prática e traduzi-lo na existência cotidiana. O voto de derramar a cada sexta-feira uma lágrima em memória da Paixão de Cristo, ao qual permanece tenazmente fiel mesmo imersa na vida da corte, testemunha-nos aquele envolvimento, aquela participação “física” e total ao mistério de Cristo que se torna relação viva e fecunda, segundo a mais genuína espiritualidade franciscana.

Na sociedade de hoje que favorece uma religiosidade intimista e frágil, reduzindo a fé a uma pulsão emotiva e desencarnada, Camila Batista sugere a toda a família franciscana uma via segura: viver o Evangelho com paixão e radicalidade e restituir “amor por amor, sangue por sangue, vida por vida”.
Somente assim poderemos ser uma presença significativa na Igreja e na história.

Conclusão

Com o anúncio desta “boa notícia”, não pretendo simplesmente notificar que uma nova Santa é acrescentada à árvore já viçosa do carisma franciscano-clariano, mas desejo assinalar sobretudo a fecundidade de uma vida vivida segundo o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. No evoluir da história e no constante empenho por renová-la, de fato, são exatamente “os santos, guiados pela luz de Deus – dizia Bento XVI na Audiência de 13 de janeiro de 2010 – os autênticos reformadores da vida da Igreja e da sociedade. Mestres com a palavra e testemunhas com o exemplo, eles sabem promover uma renovação eclesial estável e profunda, porque eles mesmos são profundamente renovados, estão em contato com a verdadeira novidade: a presença de Deus no mundo. Esta consoladora realidade – de que em cada geração nascem santos e trazem a criatividade da renovação – acompanha constantemente a história da Igreja em meio às tristezas e aos aspectos negativos do seu caminho. Vemos, de fato, século após século, nascerem também as forças da reforma e da renovação, porque a novidade de Deus é inexorável e dá sempre nova força para andar adiante”.

Caros irmãos e irmãs, eu gostaria de deixar-lhes dois pensamentos de Camila Batista que me marcaram de modo particular. Comentando as grandes tentações vividas, teria depois escrito com convicção: “Bem-aventurada aquela criatura que por nenhuma tentação deixa o bem começado!”. De outra parte, crescida na espiritualidade da restituição tão cara a Francisco, Camila rezava: “Faze com que eu te restitua amor por amor, sangue por sangue, vida por vida”. Tudo um exemplo de fidelidade e de perseverança no bem e do viver na lógica do dom total de si mesma àquele que a amou por primeiro.

Irmãos e irmãs, sejamos santos como ele é santo! A santidade é a vocação mais alta à qual pode tender um homem, uma mulher. A santidade é a nossa vocação.

Seu irmão, Ministro e servo

FR. JOSÉ RODRÍGUEZ CARBALLO
Ministro geral

Camerino, 5 de julho de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES (Part. Final)

Um estudo sobre Santa Clara leva à percepção de que Clara não se compreende independentemente de Francisco. São Francisco foi para Santa Clara um instrumento de conversão. Nos seus escritos, o nome de São Francisco é citado 31 vezes. Enquanto que nos Escritos de São Francisco não aparece o nome de Clara uma só vez. O relacionamento de Clara com Francisco é muito mais conhecido através dos escritos de Clara. A Forma de vida escrita por São Francisco, a Última vontade de São Francisco foram inseridos por Clara em seus escritos. Todo o amor e dedicação de São Francisco pela fraternidade de São Damião, a sua atenção para com aquele pequeno rebanho nos é conhecido através de Clara. Chega, então, até nós a imagem de Francisco vista por Santa Clara. Seria, então, Clara alguém que nos ajuda apenas a conhecer melhor São Francisco? Creio que não se pode fazer essa afirmação. O silêncio de São Francisco em seus escritos sobre Santa Clara reflete aquele respeito à individualidade e à originalidade que ele também tinha para com cada irmão. Ao redor de São Francisco cada irmão podia ser ele mesmo. O Evangelho era a fonte comum. Todos bebiam da mesma água. Ligados à mesma fonte, todos respondiam criativamente segundo a própria originalidade. A fisionomia da fraternidade era dada por Deus através do Evangelho. Não era Francisco quem moldava os irmãos. Por isso, nasceu uma fraternidade original. O relacionamento de Francisco com Santa Clara se deu da mesma forma. Santa Clara pode ser ela mesma. A sua Fraternidade não foi uma cópia da Fraternidade de São Francisco. O que ela aprendeu de São Francisco foi a pedagogia evangélica. E, segundo a bula de canonização, São Francisco teria insistido para que ela assumisse o governo do convento e das irmãs de São Damião. Isso revela que São Francisco ajudou Santa Clara a ser ela mesma e assim enriquecer a família franciscana com a sua resposta individual de mulher. Santa Clara, na sua humildade, não seria capaz de atribuir alguma coisa a si mesma. Ela reconhece que todos os dons têm sua origem na única fonte do Bem, aquele que é o Sumo Bem. Quando suas irmãs falam do processo de canonização, aí emerge todo o esplendor de alguém que plantou a semente da santidade no coração das companheiras. Quando a Igreja fala na figura do Papa Alexandre IV, na bula de canonização, há todo o reconhecimento de uma vida que "iluminou pelas suas obras luminosas", "escondia-se num mosteiro apertado, mas espalhava-se amplamente pelo mundo afora"; "vivia oculta na cela, mas era conhecida nas cidades".


Notas
1. Cf. R. Manselli, San Francesco, Bulzoni Ed., Roma, 1980. 2. Cf. ClaLeg 5. 3. FF 2927-2928. 4. ClaLeg 5. 5. ClaLeg 5. 6. ClaLeg5. 7. Cf. Processo di Canonizzazione, FF 3125-3126; sobre a "fama pública", cf. R. Manselli, San Francesco,34-35. 8. ClaLeg6. 9. ClaLeg 8. 10. FF 2205-2207. 11. ClaTest 30-32. 12. ClaTest 34. 13. ClaTest 48-5l. 14. ClaTest 42. 15. ClaReg II,l. 16. ClaTest 25. 17 Test 1-3 18. ClaTest 5. 19. ClaTest 6-8. 20. ClaReg VI, 3-5. 21 ClaReg VI, 7-9 22. ClaReg 1,1. 23. Cf. ClaReg 1,5; VI, 5; VI, 10; ClaTest 25,47,40,52. 24. Cf. R. Manselli, San Francesco, 165. 25. FF 3290. 26. Cf. Processo di Canonizzazione, FF 2930. 27. ClaTest 5. 28. ClaTest 24. 29. ClaTest 19. 30. ClaTest 46. 31. ClaTest 42-43. 32. Cf. ClaTest 48-51. 33. ClaTest 27-29

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A IMAGEM DE FRANCISCO PARA CLARA (Part. 5 )

Buscando olhar para Francisco com o olhar de Santa Clara, vamos tentar colher a imagem de Francisco segundo a visão de Clara. Isso nos ajudará a compreender o relacionamento humano-espiritual entre esses dois santos e, principalmente, o que São Francisco significava para aquela que se considerava sua "plantinha".

A imagem mais forte de Francisco para Clara me parece ser a de Exemplo. Em São Francisco é encontrado por Clara um exemplo de como seguir a Jesus Cristo. Através do seu jeito de viver o Evangelho, Clara encontrou uma resposta para sua aspiração de vida. Isso é confirmado de uma forma clara no Testamento: "O Filho de Deus se fez caminho. E foi esse caminho que nosso Pai São Francisco ... nos mostrou e nos ensinou pela palavra e pelo exemplo”(27). Santa Clara começa a fazer penitência "conforme o ensinamento e o exemplo de São Francisco”(28). Esse exemplo foi dado pelo Senhor: "Pois o Senhor nos deu um exemplo, um modelo e um espelho, não apenas para os outros, mas também para nossas irmãs"(29). O Pai Celestial "gerou este rebanho em sua santa Igreja pela palavra e pelo exemplo do nosso Pai São Francisco ..."(30).

São Francisco é a testemunha de profissão religiosa de Santa Clara. Foi diante dele e de uma pequena fraternidade que Clara, diante do altar da Virgem Maria, prometeu observar o Evangelho. A promessa de observar a santa pobreza ao Senhor e a Francisco foi mais tarde confirmada pela Igreja. Mas, no início, Francisco foi a testemunha: "E para maior certeza, a fim de que mais tarde não nos desviássemos dela, tive a preocupação de adquirir por meio de privilégios do Papa Inocêncio, sob cujo pontificado começamos, e dos seus sucessores, a confirmação desta santa pobreza que prometemos na nossa profissão ao nosso pai”(31). Essa promessa feita a Deus e ao nosso Pai Francisco é recordada por Santa Clara e repetida em seus escritos muitíssimas vezes, principalmente no seu Testamento.

Santa Clara vê em Francisco alguém dado pelo Senhor como "fundador, plantador e auxílio no serviço de Cristo" (fundatorem, plantatorem et adiutorem). A presença de Francisco na vida de Clara, principalmente no início de sua conversão, foi muito significativa, humana e espiritualmente. A experiência da ruptura com a família, o jogar-se na insegurança fora dos muros da cidade de Assis, a insegurança fora dos muros do castelo, na vida de pobreza e trabalho, essa experiência foi muito dura para Clara. O único apoio foi o de Francisco e seus irmãos que a acolheram. Clara encontrou alguém que já tinha passado por essa experiência e, por isso, com todas as condições de ajudá-la. Santa Clara vê em Francisco o "apoio depois de Deus, nossa única consolação e refúgio". Durante a sua vida, Francisco acompanhou a comunidade de Clara com exortações escritas e orais. O que permaneceu desses escritos foram apenas a Forma de vida e a Última vontade. Como esse auxílio de Francisco no serviço a Cristo representou para Clara um auxílio na perseverança daquilo que prometeu ao Senhor, recomenda as irmãs "presentes e futuras aos cuidados do sucessor do Pai Francisco e de toda a Ordem”(32). Aqui Santa Clara olha para o futuro e quer que se perpetue, assim como ela experimentou, esse relacionamento de ajuda entre as duas Ordens. No capítulo VI da Regra, Santa Clara recorda a promessa feita por São Francisco de nutrir sempre o mesmo diligente cuidado para com elas como o teve para com seus irmãos e quis que seus irmãos fizessem o mesmo. Santa Clara entende que a sua fraternidade deve caminhar junto com a de Francisco e espera a continuidade de sua presença através da presença dos irmãos de Francisco.

Para Clara, Francisco é alguém que vibra e se alegra com a firmeza e decisão com que ela e as outras irmãs abraçaram o ideal evangélico de vida: "Francisco então ficou cheio de alegria no Senhor quando percebeu que nós, embora corporalmente fracas e sem força, não receávamos a pobreza, o trabalho, a tribulação ... segundo o exemplo dos santos e dos irmãos de Francisco, como ele mesmo e os seus irmãos experimentaram”(33). Aqui, Clara está colocando a sua fraternidade em relação de igualdade com a fraternidade de Francisco. Clara revela que elas experimentam as mesmas exigências evangélicas que São Francisco e seus irmãos experimentam. Não é uma situação de inferioridade. E isso além de se colocarem numa situação de "corporalmente fracas e sem força". Volta novamente a questão da identidade comum das duas fraternidades no Evangelho. E Clara continua depois dizendo: "Movido de amor para conosco, aceitou para si e para sua Ordem a obrigação de ter sempre de nós o mesmo cuidado e atenção especial como de seus próprios irmãos". A preocupação de Clara é a de não se afastar do ideal do Evangelho. Por isso, insiste em não ser abandonada pela fraternidade daquele, através de quem as duas Ordens tiveram início.



Frei Inácio Dellazari, OFM

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

AMANHÃ É DIA DE SANTA BEATRIZ DA SILVA


Neste dia 17/8, a Família Franciscana comemora Santa Beatriz da Silva, fundadora das Irmãs Concepcionistas Franciscanas. Segundo a mensagem do Ministro Geral, o "contemplativo, abrindo o coração ao amor de Deus, o abre também ao amor dos irmãos e colabora ativamente na construção da história segundo o desígnio de Deus".

Leria a mensagem do Ministro Geral na intergra: http://migre.me/154cb

A FORMA DE VIDA DA ORDEM DAS POBRES IRMÃS QUE O BEM-AVENTURADO FUNDOU É ESTA.. (Part. 4)

Santa Clara, no início de sua Regra, atribui a fundação da Ordem das pobres Irmãs a São Francisco: "A forma de vida da Ordem que o bem-aventurado Francisco fundou (instituit) ...”(22). Logo em seguida promete "obediência e reverência ao senhor Papa Inocêncio" e declara que "no início de sua vida prometeu obediência, juntamente com suas irmãs, ao bem-aventurado Francisco, assim também promete obedecer firmemente aos seus sucessores". São muitas as vezes em que Clara revela essa ligação com Francisco por uma promessa de obediência (23). São Francisco, por sua vez, promete zelar pela vida das irmãs que escolheram viver conforme a perfeição do Evangelho. Parece claro que não se trata daquela obediência à qual Francisco se refere na RNB XII, onde São Francisco proíbe que alguma mulher seja recebida por algum irmão à obediência. Santa Clara não foi admitida, naquela noite de Domingo de Ramos, à fraternidade de Francisco. São Francisco, inclusive, ajudou a providenciar um lugar onde Clara pudesse ficar. Mas o que chama a atenção é que Clara "promete obediência somente a Francisco, ignorando qualquer outra hierarquia de qualquer espécie"(24). Que tipo de relacionamento se estabelece entre São Francisco e Santa Clara? Como entender a insistência de Clara em prometer obediência a Francisco e a obrigação das irmãs em obedecerem ao sucessor de Francisco?

Que Santa Clara não se considera fundadora, não pensa o Papa Alexandre IV. Na bula de canonização de Santa Clara, Alexandre IV não proclama São Francisco o fundador, mas a própria Clara como o "primeiro estável fundamento dessa grande Ordem" e como a "pedra angular desse sublime edifício". São Francisco, na mesma bula, é aquele que teve uma presença marcante no início da conversão de Clara: "Ouvindo da sua boa fama, começou logo a exortá-la, induzindo-a a servir a Cristo com toda a perfeição". Santa Clara responde como aquela que "prontamente atendeu a seus santos conselhos”(25). Clara atende a Francisco, fazendo aquilo que também os frades deviam fazer: "Distribuiu os bens que possuía aos pobres", para colocar-se no caminho de Jesus Cristo.


São Francisco, na bula de canonização de Santa Clara, é aquele que ajuda Santa Clara a chegar até São Damião, onde começou a "insigne e sagrada Ordem de São Damião". A mesma bula deixa entender que Santa Clara não queria encarregar-se do governo do convento e das irmãs, mas por insistência de São Francisco ela o aceitou: "E passados alguns anos, a própria bem-aventurada Clara, cedendo aos insistentes apelos de São Francisco, se encarregou do governo do convento e das irmãs" (26).

Na sua continuação, a bula põe toda a atenção somente em Clara, revelando os seus méritos: "Ela foi a árvore ... que, plantada no campo da Igreja, produziu o doce fruto do fervor", proporcionando "nova fonte de água viva para saciar as pessoas"; essa fonte "regou as sementeiras da vida religiosa"; "ela foi porta-estandarte dos pobres, guia dos humildes, mestra dos mortificados e abadessa dos penitentes"; "sua vida era uma doutrina e ensino para os demais, que no livro de sua conduta aprenderam a regra de vida".


A figura de Clara que emerge da Bula de canonização, que representa o reconhecimento da Igreja, é a de uma mulher que renova a vida evangélica na Igreja. Essa acontece mediante sua personalidade enérgica, corajosa e austera. Uma pessoa extremamente amável com as irmãs, mas muito austera consigo mesma.

Frei Inácio Dellazari, OFM

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ESCREVEU PARA NÓS UMA FORMA DE VIDA (Part. 3)

Santa Clara inseriu a forma de vida que São Francisco escreveu no capítulo VI de sua Regra: "Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo e Sumo Rei, o Pai Celestial, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo uma vida conforme com a perfeição do santo Evangelho, quero eu, o que prometo por mim pessoalmente e por meus irmãos, nutrir sempre, a bem de vós, o mesmo e diligente cuidado e solicitude como por eles”(20). Nessa forma de vida, como é próprio de São Francisco, a inspiração divina está na origem da vocação de Clara.

São Francisco promete por ele pessoalmente, e por seus irmãos, ter um igual cuidado e solicitude para com as irmãs como a tem para com seus irmãos. E a razão desse compromisso é: desde que vos fizestes filhas e servas do Altíssimo e Sumo Rei ... , escolhendo uma vida conforme a perfeição do santo Evangelho. Francisco se sente responsável a partir do momento em que Clara e suas irmãs escolhem a mesma vida que ele e os frades escolheram: a perfeição do Evangelho. A fraternidade que nasceu ao redor de Francisco e de Clara tem o mesmo projeto de vida. E Clara acrescenta no final da forma de vida escrita por Francisco: "E ele cumpriu fielmente esta promessa todo o tempo de sua vida e quis também que seus irmãos a cumprissem". Clara pede que o mesmo cuidado e solicitude de Francisco se perpetue com os seus seguidores para com elas.

Através de Francisco lhe foi mostrado o caminho do Evangelho. Preocupada na perseverança deste ideal, quer que os irmãos de Francisco continuem auxiliando no seguimento do Evangelho. E o próprio Francisco, na Última vontade manifestada a Santa Clara, escreveu: "Eu, Frei Francisco, o menor de todos, quero seguir a vida e a pobreza do nosso Altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos o conselho de viverdes sempre esta santíssima pobreza. Guardai-vos cuidadosamente de vos afastardes dela pelos ensinamentos ou conselhos de quem quer que seja”(21). Francisco está aqui se dirigindo às irmãs da mesma forma que se dirige aos irmãos. Ele se coloca como o menor de todos; ele mesmo promete primeiro cumprir aquilo que pede para ser cumprido; e com a terminologia característica: "rogo-vos", "guardai-vos cuidadosamente". São Francisco revela-se um pai espiritual para Santa Clara da mesma forma que o foi para os frades. Se Clara enxergava em Francisco um pai, Francisco, por sua vez, manifesta uma paternal afeição e zelo para com as damas de São Damião. Afinal, ele foi cúmplice na santa fuga de Clara, ele participou da preparação de todos os momentos até culminar naquela noite de Domingo de Ramos na Porciúncula. Não deveria ele se preocupar com a perseverança desse grupo reunido ao redor de Santa Clara? É isso que Santa Clara pede com insistência. A atitude de Santa Clara parece-me ser a mesma de Frei Leão que pede ajuda e recebe um bilhete de São Francisco; é a mesma atitude do ministro que escreve uma carta a São Francisco, pedindo para abandonar a fraternidade e ir para um eremitério. Aos dois, e a muitos outros, a presença de Francisco foi sempre uma ajuda no sentido de zelar pela fidelidade ao projeto do Evangelho. Para Frei Leão, São Francisco se revela como alguém que respeita profundamente a individualidade de cada irmão: "Do modo que melhor te parecer agradar ao Senhor Deus, e seguir seus passos e sua pobreza, assim farás com a bênção do Senhor Deus e a minha obediência". E mais: "E se, por motivo de tua alma ou de outra tua consolação, precisares e quiseres vir ter comigo, ó Leão, vem". É Frei Leão quem vai ter que descobrir o jeito de agradar ao Senhor Deus. São Francisco não tira a liberdade dos irmãos de serem criativos na resposta ao Evangelho.

Com Santa Clara, me parece que acontece o mesmo. São Francisco não moldou Santa Clara, mas ao mesmo tempo demonstrou sempre uma preocupação muito grande em zelar pelo projeto do Senhor como escreve na Carta aos Fiéis II, 2-3: "Como o servo de todos, a todos tenho a obrigação de servir e ministrar as palavras de meu Senhor, cheias de suave perfume. E considerando comigo que, devido às enfermidades e fraquezas do meu corpo, me é impossível visitar pessoalmente a cada um de vós, resolvi comunicar-vos por meio desta carta e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Verbo do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida".

Frei Inácio Dellazari, OFM

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DEPOIS QUE O ALTÍSSIMO PAI CELESTIAL, POR SUA MISERICORDIA E GRAÇA, SE DIGNOU ILUMINAR MEU CORAÇÃO, COMECEI A VIVER A PENITÊNCIA...(Part. 2)

Embora Clara se considere e insista em proclamar-se "plantinha de São Francisco", ela reconhece na sua vocação a iniciativa de Deus. O começo, o início da mudança em sua vida deve-se à misericórdia do Altíssimo que se dignou iluminar o seu coração. A vocação, segundo Clara, não foi plantada por Francisco, mas pelo Pai Celestial. Clara, então, começa a viver em penitência por causa de uma semente semeada por Deus em sua vida.

A chegada das irmãs é compreendida por Clara da mesma forma: "Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco, querendo abraçar esta vida" (15); "e juntamente com as poucas irmãs que o Senhor me tinha dado ... "(l6). Não somente em si mesma Clara reconhece a iniciativa de Deus, mas também nas irmãs que "por inspiração divina" até ela chegam, dando início a uma nova fraternidade. Clara não atribui a si mesma a sua conversão, nem a das outras irmãs. Aí há uma perfeita sintonia com São Francisco que também não se apropriava daquilo que pertence ao Senhor. Vejamos isso em São Francisco.

São Francisco, no Testamento, no final de sua vida, descreve assim o início de sua vida de penitência: "Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me amargo olhar para leprosos, mas o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia para com eles. E ao afastar-me deles, o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois de bem pouco tempo abandonei o mundo"(17).

São Francisco reconhece que foi o Senhor que lhe concedeu iniciar a vida de penitência. Tanto Francisco como Clara não atribuem a si próprios, nem um ao outro, o "início da vida de penitência", mas ao Senhor, ao Altíssimo.

Uma diferença entre São Francisco e Santa Clara aparece no segundo momento. São Francisco, quando se trata de mostrar como o Senhor concedeu o início dessa vida, coloca a figura do irmão leproso. A sua conversão, a mudança em sua vida é mediada pela presença do leproso. São Francisco separa em si mesmo dois tempos: aquele em que era amargo olhar para a figura do leproso e aquele em que olhar para o leproso se tornou doçura da alma e do corpo. O critério para verificar a sua conversão é a capacidade de olhar para a figura do irmão leproso. Santa Clara escreve que começou a "viver em penitência conforme o ensinamento e o exemplo de nosso Pai São Francisco, pouco depois de sua conversão". O Altíssimo Pai Celestial se dignou iluminar o coração de Clara mediante o ensinamento e exemplo de São Francisco. Pelos "ensinamentos e pela vida admirável (laudabilem)" de Francisco, Santa Clara experimentou a luz e a graça do Altíssimo Pai Celestial.

O Senhor concede a Francisco iniciar o processo de conversão mediante o encontro com o leproso; o Senhor concede a Santa Clara iniciar o processo de conversão mediante o encontro com o irmão Francisco. Tanto a conversão de Clara como a de Francisco passaram pela mediação do irmão. A graça do Senhor passa pela presença do irmão. Tanto Francisco como Clara fizeram esta profunda experiência de encontro com o Senhor. É a mesma inspiração, o mesmo Evangelho, o mesmo Senhor que concede. Fica mais claro ainda quando Clara escreve: "O Filho de Deus se fez para nós caminho. E foi este caminho que nosso Pai São Francisco, seu autêntico apaixonado e imitador (amator et imitator) nos mostrou e nos ensinou pela palavra e pelo exemplo" (18); como também: "Devemos, pois, queridas irmãs, contemplar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, de modo especial aqueles que ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso Pai São Francisco”(19). São Francisco é para Clara aquele que mostrou o caminho de Jesus Cristo, aquele, através do qual, Deus concedeu imensos benefícios.


Fr. Inácio Dellazari, OFM

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

CLARA A "PLANTINHA" DO SERÁFICO PAI? (Part.1)

Neste dia de Santa Clara de Assis vamos partilhar a primeira parte de um serie de postagens sobre a vida, o carisma e a santidade desta ilustre filha de Assis. O Texto na intergra é de nosso confrade Frei Inácio Dellazari, que atualmente está em missão na Diocese de Roraima - Cidade de Boa Vista.



A história de Assis é marcada pela vida extraordinária dessas duas pessoas. São Francisco nasceu no ano de 1182/3. Clara nasceu em 1193/4. Clara tinha, portanto, onze anos a menos que Francisco. Quando aconteceu a cena de renúncia de São Francisco diante do pai Pedro de Bernardone e do bispo de Assis, na praça onde se localizava a casa de Santa Clara, ela devia ter mais ou menos uns 13 anos de idade. Já era suficientemente grande para admirar, estranhar, ouvir as opiniões e repercussões de um fato desses, numa pequena cidade como era o caso de Assis. Tudo deve ter sido comentado entre todos, inclusive na própria casa de Clara. Um jovem de Assis, com todas as chances de adquirir títulos de glória, abandona tudo e prefere a companhia de leprosos e mendigos de rua. Como isso tudo deve ter repercutido na vida de Clara!

Pouco tempo depois de Francisco retornar de Roma com o primitivo grupo, e com a aprovação do Papa Inocêncio III de seu projeto de vida (1209/10), entra Rufino no grupo de Francisco, um dos primos de Clara (1).

Com isso, a vida de Francisco repercute na própria família de Clara. O próprio Rufino poderia ter talvez confidenciado a Francisco algo sobre o que intencionava Clara.


Clara, como São Francisco, já antes de sua conversão, era uma pessoa dotada de uma sensibilidade muito grande para com as necessidades dos outros, principalmente dos pobres e necessitados. Segundo a Legenda de Clara, "às escondidas enviava alimentos aos órfãos"(2). Segundo Pacífica de Guelfuccio, Clara "amava muito os pobres" e "gostava de visitar os pobres" e era tida "com grande veneração pelos cidadãos”(3). Parece que a sua personalidade se identificava muito com a de São Francisco. Por isso talvez não seja nada estranho que essas duas pessoas tivessem uma afinidade e compreensão muito grande de uma para com a outra.


Clara, "ouvindo falar neste tempo de Francisco, cujo nome já era famoso e que como homem novo renovava com novas virtudes o caminho da perfeição esquecido no mundo, logo quis ouvir e ver”(4). São Francisco, por sua vez, "sabendo da ótima fama de tão agraciada jovem (talvez Rufino tenha falado), não é nele menor o anseio de encontrá-la e falar-lhe"(5). A legenda deixa claro que há um interesse de ambos em conversar e se encontrar. Começam então os encontros. Parece que a primeira vez, foi Francisco a visitar Clara. Clara, porém, visitou mais vezes Francisco. Desses encontros nasceu, aos poucos, uma profunda amizade entre os dois na comunhão do mesmo ideal de vida evangélica.


Conta também a legenda que esses encontros se realizavam às escondidas, sem que ninguém soubesse. Não eram mais freqüentes "para que essa amizade não fosse percebida pelas pessoas, nem fosse denegrida pela opinião pública"(6). Para evitar qualquer suspeita, Francisco se fazia acompanhar de Frei Filipe Longo, e Clara, de Bona de Guelfuccio (7). Clara "confia-se inteiramente à prudência de Francisco, escolhendo-o, após Deus, para mestre de sua direção"(8).


Nesses encontros foi amadurecendo em Clara o ideal de vida que buscava e foi também preparada a sua fuga da casa paterna. Na noite de Domingo de Ramos de 1212, juntamente com Pacífica de Guelfuccio, Clara foge de casa e se dirige à Porciúncula, onde Francisco e os frades a aguardavam para a celebração da consagração de sua vida ao "Altíssimo Pai Celestial". Os frades a aguardaram em vigí1ia, com tochas acesas, ao pé do altar da bem-aventurada Virgem Maria. Segundo a legenda, foi o "lugar onde a nova milícia dos pobres, conduzida por Francisco, teve seu início feliz, para que ficasse patente que a Mãe de misericórdia, na sua habitação, desse à luz ambas as famílias religiosas" (9).

E de fato, não poderia ter sido outro, o lugar escolhido do que o lugar onde moram os pobres. Fora dos muros da cidade de Assis, em meio às inseguranças do mundo dos pobres, na igrejinha que São Francisco recebeu por ser a mais pobre, é somente aí que poderia nascer uma fraternidade universal, sem exclusão. Foi a partir do lugar do pobre que Santa Clara e São Francisco conheceram a possibilidade da fraternidade e onde eles mesmos puderam fazer a experiência de fraternidade. Foi ali que São Francisco deixou de ser filho de Pedro Bernardone e Clara de Favarone, e tornaram-se irmãos.

Despojados da ambição dos comerciantes e nobres, que disputavam a hegemonia em Assis, entre os menores sociais e a partir deles nasceram duas fraternidades de menores evangélicos.

Clara foi acolhida por Francisco e pelos frades no mesmo lugar que para Francisco e para a comunidade primitiva franciscana representa o centro de reunião e de irradiação da vida do Evangelho.


A legenda distingue bem quando fala de ambas as famílias religiosas, mas geradas pela mesma "Mãe de misericórdia". Há algo em comum e algo que distingue. Giacomo da Vitry, na carta escrita em outubro de 1216, enxergava um mesmo movimento, de "ambos os sexos, que, despojando-se de qualquer propriedade, abandonam o mundo. Chamam-se frades menores e irmãs menores". A distinção que é feita refere-se ao modo de vida. Os frades dedicam-se ao apostolado durante o dia e se recolhem à contemplação à noite; enquanto que as mulheres "convivem em alguns hospícios não distantes das cidades; não aceitam doações, mas vivem com o trabalho de suas mãos"(10). Segundo Vitry, há uma identificação nos "menores" e uma distinção no concretizar a mesma vocação.

A presença de São Francisco continuou na procura de um lugar para Clara até que por "vontade do Senhor e de São Francisco" foram morar junto à igreja de São Damião, onde, em pouco tempo, cresceram em número (11). Depois de se estabelecerem em São Damião, São Francisco continuou a acompanhá-las através de exortações escritas. Segundo Clara, São Francisco durante a sua vida deixou "vários escritos" (plura scripta) (12), além de auxiliá-las através da palavra e do exemplo.


Santa Clara, em seu Testamento, recomenda as irmãs aos cuidados do sucessor de São Francisco: "E como ele durante toda a sua vida mostrou tanto cuidado em palavras e obras para tratar e cuidar de nós, suas plantinhas, assim também recomendo agora as minhas irmãs, presentes e futuras, aos cuidados do sucessor de nosso Pai São Francisco e de toda a sua Ordem, para que eles nos ajudem a crescer sempre no serviço de Deus e especialmente na melhor observância da santa pobreza"(l3)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MENSAGEM DO MINISTRO GERAL PARA SOLENIDADE DE SANTA CLARA DE ASSIS

Frei José Rodríguez Carballo lembra o VIII Centenário da Fundação da Ordem de Santa Clara. "Com esta carta que, anualmente, vos envio por ocasião da festa da Plantinha de Francisco, desejo oferecer algumas pistas de reflexão sobre a contemplação e sobre a solidão e o silêncio para que possais seguir, conforme palavras de São Boaventura, “com solicitude as pegadas de vossa beatíssima mãe (...)
Continue a leitura desta carta no link abaixo:

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

02 DE AGOSTO : FESTA DE NOSSA SENHORA DOS ANJOS DA PORCIÚNCULA - PERDÃO DE ASSIS

No calendário litúrgico franciscano, o dia 2 de agosto é dedicado à celebração da Festa de Nossa Senhora dos Anjos, popularmente conhecida como "Porciúncula". Na introdução do texto litúrgico do missal e da liturgia das horas, se diz o seguinte:

"O Seráfico Pai Francisco, por singular devoção à Santíssima Virgem, consagrou especial afeição à capela de Nossa Senhora dos Anjos ou da Porciúncula. Aí deu início à Ordem dos Frades Menores e preparou a fundação das Clarissas; e aí completou felizmente o curso de seus dias sobre a terra. Foi aí também que o Santo Pai alcançou a célebre Indulgência , que os Sumos Pontífices confirmaram e estenderam a outras muitas igrejas. Para celebrar tantos e tão grandes favores ali recebidos de Deus, instituiu-se também esta Festa Litúrgica, como aniversário da consagração da pequenina ermida".

COMO SÃO FRANCISCO PEDIU E OBTEVE A INDULGÊNCIA DO PERDÃO.

Segundo o testemunho de Bartolomeu de Pisa, a origem da Indulgência da Porciúncula se deu assim:

Uma noite, do ano do Senhor de 1216, Francisco estava compenetrado na oração e na contemplação na igrejinha da Porciúncula, perto de Assis, quando, repentinamente, a igrejinha ficou repleta de uma vivíssima luz e Francisco viu sobre o altar o Cristo e à sua direita a sua Mãe Santíssima, circundados de uma multidão de anjos. Francisco, em silêncio e com a face por terra, adorou a seu Senhor.

Perguntaram-lhe, então, o que ele desejava para a salvação das almas. A resposta de Francisco foi imediata: "Santíssimo Pai, mesmo que eu seja um mísero pecador, te peço, que, a todos quantos arrependidos e confessados, virão a visitar esta igreja, lhes conceda amplo e generoso perdão, com uma completa remissão de todas as culpas".

O Senhor lhe disse: "Ó Irmão Francisco, aquilo que pedes é grande, de coisas maiores és digno e coisas maiores tereis: acolho portanto o teu pedido, mas com a condição de que tu peças esta indulgência, da parte minha, ao meu Vigário na terra (Papa)".

E imediatamente, Francisco se apresentou ao Pontífice Honório III que, naqueles dias encontrava-se em Perusia e com candura lhe narrou a visão que teve. O Papa o escutou com atenção e, depois de alguns esclarecimentos, deu a sua aprovação e disse: "Por quanto anos queres esta indulgência"? Francisco, destacadamente respondeu-lhe: "Pai santo, não peço por anos, mas por almas".

E feliz, se dirigiu à porta, mas o Pontífice o reconvocou: "Como, não queres nenhum documento"? E Francisco respondeu-lhe: "Santo Pai, de Deus, Ele cuidará de manifestar a obra sua; eu não tenho necessidade de algum documento. Esta carta deve ser a Santíssima Virgem Maria, Cristo o Escrivão e os Anjos as testemunhas".

E poucos dias mais tarde, junto aos Bispos da Úmbria, ao povo reunido na Porciúncula, Francisco anunciou a indulgência plenária e disse entre lágrimas:"Irmãos meus, quero mandar-vos todos ao paraíso!"


Condições para receber a indulgência plena do Perdão de Assis (para si mesmo e para os defuntos)

No dia 2 de agosto de cada ano (das 12 horas do dia 1º de agosto até as 24 horas do dia 2), pode se adquirir a Indulgência Plenária, com as seguintes condições:

• Visitando uma igreja paroquial, onde se reza o Credo, para afirmar a própria identidade cristã; e o Pai Nosso, para afirmar a própria dignidade de filhos de Deus recebida no Batismo;

• Confissão sacramental para estar em graça de Deus (oito dias antes ou depois);

• Participação na Missa e comunhão eucarística;

• Uma oração nas intenções do Papa. A indulgência só pode ser lucrada uma vez.


quarta-feira, 19 de maio de 2010

DIA 20 DE MAIO: DIA DE SÃO BERNADINO DE SENA - FRADE MENOR

Nasceu em Massa Marítima, na Toscana, Itália, no ano de 1380. Muito cedo, infelizmente, perdeu seus pais; mas, por outro lado, a providência santíssima agiu na sua formação através de tias cristãs, fervorosas. Tanto, que oraram, testemunharam, foram canais da providência divina para a vida de São Bernardino. Numa vida de oração e penitência, ele discerniu seu chamado a uma vida consagrada, entrando para a família franciscana na Odem dos Frades Menores. Ali, tornou-se sacerdote.

São Bernardino possuia muitas qualidades; muitas delas, sobrenaturais. Muitos dons, o carisma da pregação. Um homem zeloso, liderou o movimento da observância em prol de uma vivência radical do carisma franciscano.

Quantas pessoas, na Itália, conheceram esse santo por causa da eficácia do nome de Jesus! Grande devoto; tanto que nas leituras do ofício de hoje, encontramos um texto tirado de um de seus sermões: “O nome de Jesus é a luz dos pregadores, porque ilumina, com o seu esplendor, os que anunciam e os que ouvem a Sua Palavra. Por que razão a luz da fé se difundiu no mundo inteiro tão rápida e ardentemente, senão porque foi pregado este nome?”.

Um grande pregador, ele reconhecia que tudo era graça na sua vida. Muitos puderam conhecer, através dos lábios desse pregador, o amor de Deus. Ele se expressou, revelou-se plenamente em Cristo Jesus na força do seu espírito. São Bernardino, como todos dos santos e santas da Igreja de todos os tempos, foi conduzido pelo Espírito Santo.

Centrado no mistério da Eucaristia, devotíssimo da Santíssima Virgem, ele se consumiu ao serviço da Palavra e do povo de Deus. No ano de 1444, ele partiu para o céu e intercede por nós para que sejamos todos servos da Palavra para glória e nome de Jesus.

São Bernardino de Sena, rogai por nós.


fonte:http://www.cancaonova.com/portal/canais/liturgia/santo/index.php?dia=20&mes=5